Existem vários fatores que podem afetar a potência de uma determinada substância. Na literatura médica, o termo meia-vida, ou semi-vida, refere-se ao período de tempo que uma certa dosagem de uma droga leva a diminuir a sua concentração para metade. Não se trata de metade da vida ativa total, uma vez que se refere sempre ao tempo que o organismo leva a metabolizar 50% da quantidade presente. Por exemplo, se injetar-mos 100mg de um esteróide com uma meia-vida de 4 horas, na quarta hora após administração apenas estaria presente 50mg de composto activo. Passadas mais 4 horas, ainda teríamos substância activa no organismo, mas em metade da quantidade inicial, ou seja, 25mg. Podem ser necessárias muitas "meias-vida" antes de uma droga ficar completamente inactiva.
Uma maneira simples de ilustrar este conceito é através da experiência de lançamento da moeda ao ar. Certamente que está lembrado desta experiência nos seus tempos de estudante. O processo consiste em colocar 100 moedas numa caixa plana fechada, suficientemente grande para que todas elas fiquem lado a lado confortavelmente, sem empilhar. Começamos com todas as "caras" viradas para cima. Seguidamente fechamos a caixa, agitamo-la vigorosamente e abrimo-la novamente. Nesta altura, removemos todas as que apresentam "escudo" exposto. O processo é repetido até que todas as moedas sejam excluídas da caixa. Concluímos que em cada fase, perdemos cerca de metade das moedas presentes. Cerca de 50 no primeiro, 25 no segundo, uma dúzia no terceiro e assim sucessivamente. Embora a maior parte tenha sido excluída logo no início, são necessárias várias etapas até todas elas serem eliminadas. Normalmente algumas pessoas até têm dificuldade de se ver livre de todas elas. Isto ilustra bem a forma como dimensionamos o metabolismo das drogas no corpo. A meia-vida não é uma medida precisa do tempo que uma substância se encontra activa no organismo, mas representa um guia para otimizar a calendarização das doses, evitando oscilações de concentração indesejáveis.
Esteróides sem Modificação
Nos primórdios da investigação em esteróides, a meia-vida era uma das bases mais relevantes no desenvolvimento de compostos comerciais. Hormônios esteróides naturais têm semi-vidas muito curtas, o que dificulta a manutenção de níveis plasmáticos constantes. Por exemplo, a meia-vida da testosterona livre é de apenas alguns minutos (1) e de apenas aproximadamente 1 hora a partir do local de injeção. É também facilmente processada pelo fígado logo, quando tomada oralmente, apenas uma pequena fracção atingirá a corrente sanguínea intacta. Com a via oral complicada, injeções regulares, repetidas diariamente, seria provavelmente a única forma de usar testosterona livre com fins terapêuticos. Obviamente esta situação é desconfortável, ou mesmo impraticável, o que impulsionou a comunidade científica a debruçar-se sobre formas de estender a vida desta e outras hormonas no organismo. Analisemos então os dois métodos mais comuns e eficazes que foram desenvolvidos e adoptados pela indústria farmacêutica para prolongar a efectividade de uma droga.
Alfa - Alquilação no Carbono 17 para Via Oral
Provavelmente já encontrou esta referência na sua pesquisa sobre esteróides anabolizantes. É um processo através do qual um carbono extra é adicionado à molécula na posição 17 alfa. Este átomo ocupa a ligação necessária ao esteróide para que este seja reduzido à sua forma inactiva 17 - Ceto, inibindo completamente a sua via metabólica (2). A adição de um grupo alquilo funciona estendendo consideravelmente a meia-vida de um composto, passando de minutos na sua forma livre, a horas na sua forma modificada. Infelizmente, este processo também diminui a capacidade da hormona se ligar ao receptor androgénico, mas, uma vez que a concentração de químico fisiologicamente útil é bem superior ao normal, o balanço acaba por ser positivo na perspectiva do utilizador (3). Esta alteração é ideal para administração oral, uma vez que o fígado não tem capacidade de processar este tipo de modificação com eficiência, aumentando bastante a quantidade de hormona activa que atinge intacta a corrente sanguínea. No entanto, estes compostos revelam-se bastante hepatóxicos, não sendo ideais quando comparados com a administração intramuscular.
Esterificação para Administração Intramuscular
A maioria dos esteróides injectáveis utilizam ésteres para aumentar a sua meia-vida no organismo. Esterificação é o processo de ligar um ácido carboxílico à molécula na posição 17 - beta. O propósito é a proteção do grupo activo 17 - Hidroxilo, o alvo fulcral da metabolização dos esteróides. O éster funciona também proporcionando propriedades hidrófobas ao composto, aumentando a solubilidade em lípidos e, consequentemente, diminuindo a solubilidade em meios aquosos. Isto dificulta a captação da droga por parte do sangue e o seu transporte, diminuindo a taxa com que o composto deixa o local de injecção. Como resultado, forma-se um depósito inactivo do hormônio na zona de administração, libertando-se lentamente na corrente sanguínea por dias ou semanas. Uma vez no sangue, o éster é rapidamente removido por enzimas, ficando a base esteróide biologicamente activa.
Podemos abordar a meia-vida dos injetáveis de duas formas distintas. A primeira refere-se à meia-vida para a libertação do hormônio da zona de administração, geralmente medida em dias, por vezes semanas, na maioria dos compostos comerciais. A segunda abordagem está relacionada com a meia-vida na corrente sanguínea. Este conceito é de mero interesse intelectual, não tendo aplicações práticas significativas para o paciente, adquirindo a meia-vida da libertação o papel relevante para o sujeito alvo. Em qualquer uma destas situações, podemos olhar para estudos em humanos com decanoato de Nandrolona, vulgo Deca, e obter medidas precisas de ambas as abordagens (4). Primeiro, podemos observar que a Deca apresenta uma meia-vida média de 6 dias para a libertação do local de injeção. É fácil agora compreender porque se diz que esta substância de uso comum é tecnicamente activa até cerca de 1 mês após uma única aplicação. Seguidamente, temos uma semi-vida de cerca de 4 horas para hidrólise do decanoato da Nandrolona e total distribuição e metabolização do hormônio, já ativa. A meia-vida apenas para a hidrólise do éster decanoato é de apenas uma hora. Em baixo estão também indicadas as semi-vidas da Nandrolona livre e dos seus ésteres disponíveis comercialmente para administração intramuscular (5).
Meia vida aproximada de alguns esteróides anabólicos injetáveis:
Decanoato de nandrolona: 15 dias
Undecilenato de boldenone: de 14 a 16 dias
Mentelona: 10.5 dias
Durateston: de 15 a 18 dias (1)
Cipionato de testosterona: 12 dias
Enantato de testosterona: 10.5 dias
Propionato de testosterona: 4.5 dias
Testosterona aquosa: 1 dia
Stanozolol: 1 dia (2)
Acetado de Trembolone: 3 dias
Enantato de Metenolona: 10,5 dias
(1) A durateston é um composto dos seguintes ésteres com suas respectivas meias vidas aproximadas:
Decanoato: 15 dias
Fenilpropionato: 4.5 dias
Isocaproato: 9 dias
Propionato: 4.5 dias
(2) O Stanozolol possui uma meia vida atípica comparada a outras drogas injetáveis,
pois seus cristais dissolvem lentamente, mas, tão logo tenha dissolvido, sua concentração declina rapidamente.
Meia vida aproximada de alguns esteróides anabólicos orais:
Oximetolona: de 8 a 9 horas
Oxandrolona: 9 horas
Metandrostenolona: de 4.5 a 6 dias
Metiltestosterona: 4 dias
Stanozolol oral ou a forma injetável administrada oralmente: 9 horas
Meia vida aproximada de algumas drogas não esteróides anabólicos:
Cloridrato de clembuterol: 1.5 dias
Citrato de clomifeno: 5 dias
Aminoglutademida: 6 horas
Efedrina: 6 horas
Tiratricol: 6 horas
T3: 10 horas
Anastrozol: 3 dias
Tempo de detecção de algumas drogas :
O tempo de detecção dessas drogas é contado a partir da última administração. Os dados a seguir não são completamente seguros. Novas técnicas laboratoriais vêm sendo constantemente aprimoradas, na tentativa de coibir o uso indiscriminado dessas substâncias. Muito embora saibamos que muitas drogas utilizadas por alguns atletas são praticamente indetectáveis em exames anti-doping. Outros aspectos filosóficos a respeito da utilização de drogas são discutidos no livro Musculação - Além do Anabolismo.
Oxandrolona: 3 semanas
Oximetolona: 2 meses
Undecilenato de boldenone: de 4 a 5 meses
Clembuterol: de 4 a 5 dias
Metandrostenolona: 5 semanas
Decanoato de nandrolona: 18 meses
Efedrina: de 4 a 5 dias
Fluoximesterona: 2 meses
Fenilpropionato de nandrolona: 12 meses
Trembolone: 5 semanas
Mesterolona: 5 semanas
Metenolona: de 4 a 5 semanas
Durateston: 3 meses
Cipionato de testosterona: 3 meses
Enantato de testosterona: 3 meses
Propionato de testosterona: de 2 a 3 semanas
Testosterona aquosa: de 3 a 4 dias
Stanozolol oral: 3 semanas
Stanozolol injetável: 2 meses
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